Oito de março.



“A ideia da existência do dia Internacional da Mulher surge na virada do século XX, no contexto da Segunda Revolução Industrial e da Primeira Guerra Mundial, quando ocorre a incorporação da mão-de-obra feminina, em massa, na indústria”.

É o dia para celebrar o respeito ao nosso sexo e os direitos conquistados. Mas, seria feliz o dia internacional da mulher mesmo para aquelas que ainda são desrespeitadas social e humanamente?

No Brasil, de acordo com um estudo feito pelo Ministério da Justiça, 50 mil mulheres são estupradas por ano (e só em 2012, 50.617 casos de estupros foram registrados. Mas e os casos que não chegam à polícia?).

Na nossa sociedade, a imagem de um homem bem sucedido é associada a um bom emprego, um bom carro e uma mulher bonita do lado. E a de um homem feliz? Um bar, uma boa cerveja e uma mulher gostosa do lado. E tem que ser magra e gostosa. Mulher de verdade é assim.

Uma mulher não pode se realizar sem um bom casamento e sem filhos. Não importa se tenha feito boas faculdades e tenha títulos de doutora, se é bastante inteligente, se tenha algum talento em especial ou se tem participação ativa no crescimento da economia mundial. Uma mulher não é dona do seu próprio corpo ou dos seus próprios desejos, por questões religiosas e sociais, e não importa o que ela deseje para sua própria vida. Uma mulher completamente realizada e feliz? Casada e com filhos. Não casada, com filhos e uma profissional dedicada e capaz, apenas mãe e esposa (não desmereço as mães e as esposas, mas para a sociedade, esses são seus únicos papeis). E se a mulher é mãe solteira? Meu Deus, nem pensar, que coisa mais feia!

Uma mulher não pode rejeitar uma cantada na rua porque é ela é mulher, e mulheres têm que ser cantadas por onde passam (gostando disso ou não). Uma mulher não pode ser respeitada por trabalhar com o corpo (se é dançarina, se é modelo, se é prostituta, precisa aceitar e conviver com assédios, com discriminação, e até com violência, foi uma escolha dela e a sociedade, tanto a masculina quanto a própria feminina não enxerga bem mulheres “desse tipo”). Se uma mulher é assediada, ou violentada, é porque com certeza existiu algum motivo para isso (talvez seja a forma como ela se veste... Pense bem: no oriente médio, as mulheres são estupradas, agredidas – moral e psicologicamente – e desrespeitadas diariamente, e não preciso lembrar a forma como são obrigadas a se vestir. Afinal, ela é uma mulher. Um símbolo sexual. E tem que conviver com isso. Quando ela não denuncia uma agressão é porque ela gosta. Só pode ser isso. Por que outro motivo seria? Não importa seu estado psicológico, sua exposição na mídia e na sociedade, não importa. Motivos serão encontrados para que possam explicar qualquer violência. Ela não pode ter medo ou vergonha de sofrer fisicamente por simplesmente ser mulher. Se não denuncia, ela gosta. Não é o que dizem?

Então, feliz dia internacional da mulher. Mesmo para aquelas que ainda sofrem todos os tipos de agressões. Feliz dia internacional da mulher para aquelas mulheres que tem uma qualificação profissional igual ou superior à de um homem dentro de certa empresa, mas que ainda assim, recebem menos que eles (porque acredite: isso ainda existe). Feliz dia internacional da mulher para as mulheres que nada mais são que um símbolo sexual e nada mais podem ser do que uma mãe e uma esposa dedicada. Feliz dia internacional da mulher, principalmente, porque já podemos votar, já podemos cursar faculdades, já podemos fazer parte de um corpo político de um país e temos tudo que precisamos, e se falta: nossos pais e maridos podem nos dar; e respeito é só um detalhe, porque tudo o que conquistamos hoje (e em todos os dias) não é por mérito próprio, é porque a sociedade masculina generosamente nos prestou esse favor cedendo-nos um espaço. Não podemos nos esquecer de agradecer. E feliz dia internacional da mulher, mas só para aquelas dentro dos padrões permitidos pela sociedade.

Pensamento arcaico, sociedade que retrocede.

Fiquei em dúvida sobre como daria início à nova temporada de postagens desse velho blog. Nas introduções desse mundo a fora, ouço muita gente falando e falando sem realmente introduzir nada; portanto, acho que não haveria incômodos se eu fizesse o mesmo e falasse exageradamente, como de costume. Mas nesse caso: escrevesse.

Um tal de “preciso fazer algo” andava ecoando em meus ouvidos de uma forma tão insistente que não entendo como só agora resolvi dar início a algo que desse algum sentido aos meus dias. E tudo se resume a isso: a fazer alguma coisa. Se não em nome do apelo que o título desse blog faz, em meu próprio nome e minha própria inquietude...

A questão é que algumas questões vivem me incomodando bastante, e pensando em algumas delas, e em como eu sentia necessidade de falar e expor meu ponto de vista (não como antigamente, quando eu ironicamente nem sempre estava certa porque às vezes dormia...) de forma que eu não fosse interrompida. De forma que me fizesse ser entendida. Sendo assim, resolvi englobar todas essas questões em uma série de textos a base não só de opinião, como também de pesquisa. A boa e velha pesquisa.


E embora eu esteja lutando, com uma força inexplicável, para me contentar com essa simples série de textos quando na verdade eu queria produzir algo que fosse realmente impactante (é essa velha “motivação social” e o desejo de mudança que a vida um dia talvez trate de reprimir), intitulei meu pequeno projeto de “Pensamento arcaico, sociedade que retrocede” que, resumidamente, irá servir para tentar explicar todas essas questões que não me deixam entender como uma sociedade cuja economia só cresce cujos avanços tecnológicos só aumentam e cuja tolerância, compaixão e todos aqueles bons sentimentos que nossos pais nos ensinam (ou ensinaram) parecem retroceder a cada dia resumindo-se em atitudes neandertais... Por que será, afinal, que continuamos a nos preocupar e a enfatizar coisas que não são tão importantes assim? Onde está o bem comum?